Fotografia socioeducativa

Considero ensinar fotografia uma tarefa relativamente fácil para quem ensina, pois normalmente há uma aceitação fácil do aluno, mesmo sendo matéria obrigatória ou eletiva, em cursos livres é ainda mais fácil, pois são eles que procuram as aulas e muitas vezes disputam vagas em instituições que oferecem tais cursos. As pessoas sempre dizem que adoram a fotografia, isso torna tudo muito mais fácil, porém, mesmo com essa boa receptividade, existem algumas situações um pouco mais complexas.

Adolescentes já possuem uma energia extravagante, e quem deu aulas no ensino médio sabe como é complexo manter a atenção dos alunos. A disposição própria da idade, a explosão de hormônios, a instabilidade do humor e os incansáveis testes de stress lançados o tempo todo para ultrapassar os limites do sistema estabelecidos na escola – sejam conscientes ou não – são elementos de uma dinâmica bem conhecida pelos professores. Apesar de ser um bom desafio, dá para aumentar o grau nessa escala.

Esse ano tive uma experiência nova, dar aulas para adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas da Fundação Casa. Os garotos estavam em processo de progressão e em pouco tempo estariam liberados e logo teriam a retomada de seus caminhos após o cumprimento das penas. O nosso objetivo é dar o máximo de informação para que eles usem de suporte para estudarem, trabalharem e terem uma perspectiva melhor do que a rua os ensinou e prepará-los para a vida em liberdade .

Uma classe somente de meninos nessa fase disputam tudo o tempo todo, é basicamente uma mistura de arena de gladiadores e uma coca com mentos. Gerenciar uma turma assim exige um certo malabarismo, pois se você bate de frente com muito rigor, vira cabo de guerra e eles adoram desafiar, se você afrouxa demais, a sala vira um circo romano. Nesse caso, o rigor é mais que necessário, o respeito existe e é obrigatório.

Manter a dinâmica de ensino com hipervigilância e a necessidade de validação do respeito operam em 100% do tempo, além disso a estrutura, para aulas tão específicas e técnicas, simplesmente não existe, eu tinha uma sala, lousa, giz e uma TV para colocar meu pendrive. Esse desafio se tornava ainda mais difícil pela falta de qualquer recurso, até tive a compra de alguns materiais iniciais, mas quando fui usar câmera, era a minha que estava em jogo, além do flash, luz de estúdio eu qualquer coisa que eu quisesse usar em aula teria que ser meu. Diante dessa explanação sobre o contexto, fui para um dos recursos que mais gosto para iniciar as aulas, a câmera obscura, um “brinquedo” para adultos e crianças e que encanta 100% das pessoas.

Nos encontros iniciais sobre fotografia, abordei a questão da formação da imagem, que talvez seja o principal tema desse assunto. Ao produzir uma câmera de ver, com poucos materiais, cria-se a percepção de que qualquer coisa pode ser construída, estimulando assim o pensamento e a curiosidade do fazer e do saber.
Ao observar a imagem se formando dentro da caixa, tira-se um pouco do estigma de uma aparente tecnologia tão distante, no sentido de como ela funciona, e das explicações sobre física, história, filosofia e tantas outras coisas inerentes a essa construção. Essa é uma iniciação prática que agrega conhecimento da fotografia, seguindo a evolução do conhecimento a cada material apresentado e a cada encontro com as propostas, até se chegar ao uso da tecnologia atual.

A imagem formada na câmera obscura ocorre exatamente da mesma forma que em qualquer outra câmera fotográfica, seja ela analógica, digital ou o próprio smartphone, e também é assim que acontece em nossos olhos: a imagem é invertida em todos esses aparelhos e, no caso da visão, existe a interpretação feita pelo cérebro. Acredito que essas comparações entre o aparelho humano e os aparelhos construídos possam ajudar no aprendizado não só da matéria que ministro, mas em uma série de outros assuntos já citados, inclusive na escola, onde muitos temas são abordados teoricamente e, nesse caso, podemos usar a prática como demonstração do que se foi dito.
A construção da câmera foi feita com adolescentes, porém faço essa atividade com pessoas de todas as idades e, ao ver a imagem invertida no interior do aparelho construído, normalmente há, em qualquer idade, inclusive para mim, um encantamento pela imagem projetada.

A câmera na caixa de fósforo

Após alguns dias na atividade da câmera obscura, apresentei a câmera pinhole para ser construída a partir de uma caixa de fósforos e filme fotográfico preto e branco. Para começar, eles não estavam nada empolgados, não acreditavam que a partir daquela caixinha poderia gerar uma câmera fotográfica, não sei bem o que pensaram, mas não deram a mínima, poucos alunos se dispuseram a ajudar na confecção.

Quando fomos fotografar com a fiatlux, foi outra desconfiança, como naquela caixinha com um furo minúsculo poderiam gerar alguma imagem? Considerando a idade média de 16 anos, aqueles meninos já nasceram na era do smartphone e a imagem digital presente, é certo que nunca haviam visto um filme 35mm, eu precisava explicar tudo muito minuciosamente e ser o mais claro possível. Levei uma luz portátil de bateria para iluminar a cena, pois tínhamos que fotografar dentro da escura sala de aula, e sugeri um tempo de exposição conforme minha experiência. Fizemos retratos com a pinhole, nem todos toparam, um deles, o mais rebelde da sala, até quis apostar que não haveria nenhuma foto.

Fazer uma câmera e fotografar é um risco constante do projeto não dar certo, as vezes entra luz demais, ou a caixa pode ter alguma fenda, o furo pode sofrer alguma avaria e, enfim, coisas podem acontecer e não permitir o surgimento da imagem, porém, aquela câmera precisava dar muito certo, era minha reputação em jogo, o respeito e minha postura como professor.

Após fotografarmos com a câmera pinhole, eu aumentei o grau de ansiedade, resolvi levar os químicos, o tanque, espiral e revelarmos o filme alí mesmo na sala de aula. Caso desse errado, a responsabilidade seria minha. Levei luvas e os alunos se revezaram para agitar o tanque durante a revelação, levei luvas descartáveis e revelamos.

O filme revelado saindo da espiral já demonstrava algumas imagens, os alunos não entendiam bem, pois o que apareceu era uma película com borrões e essa relação de negativo/positivo ainda precisava ser explicada de maneira prática, pois eu já havia falado sobre isso. Eles olhavam o resultado tentando entender, levei lupa para facilitar e alguns se esforçavam para entender a imagem. Deu certo, apesar de ainda ficarem com um grande ponto de interrogação na face.

Ganhei a aposta com o rebelde, que não quis dar muita importância e que parecia estar um tanto decepcionado, pois o resultado saiu, talvez contrariando o que ele imaginava.

Algumas imagens de ilustração se misturam as fotos feitas com a pinhole, pois além de eu não poder identificar os personagens, eu também não podia entrar com aparelho celular para registrar as aulas. Posteriormente eu usei uma câmera digital e em outro post consigo colocar fotografias que não comprometam os participantes.

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